
Por um proveitoso tempo de espera
Tenho acompanhado o frisson das lojas em nossa cidade, já em plena arrumação natalina, com muitas luzes e um colorido que traduz o período das festas de fim de ano que se aproximam. Belém é interessante; termina o período do Círio, eis que as decorações das lojas só fazem trocar as cores ou os textos para o conhecido “Feliz Natal” ou “Boas Festas”, cambiando as imagens da festa de outubro pelos diversos símbolos natalinos, como as figuras do trenó com as renas e presentes, do “bom velhinho”, dos pinheiros (em pleno calor de 38 graus), da “neve” caindo no “quente e úmido” de nosso clima, das casinhas no estilo europeu, com chaminés e até bonecos de neve; tudo isto, paralelo aos muitos convites e peças publicitárias que visam despertar os clientes para antecipar as compras e até para adiantar o gasto do décimo terceiro salário com as promoções e sorteios que invadem o cotidiano dos “shoppings” e do comércio local em apelos; muitos deles, repetitivos, agressivos e barulhentos.
Interessante é que o “vai e vem” das pessoas também entra neste “clima” de consumo e de muita pressa, estresse; e, às vezes, muita falta de educação e respeito para com o outro, parece um desespero pela melhor oferta e para comprar mais e mais, como se isso significasse o sucesso pessoal. Pena que parece ser mais um natal das compras e da opulência que se encaminha para ocultar o presépio e a pobreza da noite do nascimento do Salvador, da simplicidade daquele lugar onde a estrela brilhou, mostrando onde a sagrada família estava naquela noite maravilhosa. Ainda bem que, contrários à febre de consumo, há também exemplos de solidariedade com os que sofrem e junto aos que não tem sequer o que comer. Graças Deus ainda não sucumbimos, pelo menos não todos, à lógica do consumo e ainda há o atendimento relevante ao apelo da Igreja de Belém, chamado que continua forte para que participemos todos, mais uma vez, do projeto missionário em favor do que precisam de amor e do olhar solidário e fraterno.
Em mais um natal que se aproxima, quando na proporção das “ofertas” e do volume de dinheiro circulante, cresce a esperteza dos larápios, a audácia dos criminosos, ávidos por dinheiro, sacolas e bolsas daqueles que escolheram como vítimas de sua ganância e da violência que optaram como “modo de vida”, se renova também a oportunidade de nos prepararmos para viver, santamente, este período de espera, de advento e de liturgia do nascimento de Jesus. Oportunidade de escolhermos o caminho e o jeito de caminhar; se vamos rumo à gruta de Belém, ou aos centros de compras, nos enchendo com as coisas que alimentam nossa vaidade; se vamos nos inflando de soberba às lojas ou no desapego às coisas materiais e no esvaziamento de nós mesmos para o encontro com a família de Jesus. Viveremos assim, na escolha entre a simplicidade e a alegria de nos sentirmos amados por Deus ou na prisão das preocupações materialistas e no cultivo dos ressentimentos. Penso que é tempo de nos prepararmos bem, de experimentarmos a liberdade do amor gratuito, de construirmos momentos de paz e de boa convivência junto às pessoas que convivemos. Creio que é preciso desacelerar a rotina dinâmica para um tempo melhor com os que amamos, dando espaço de escuta ativa, dialogando mais e melhor e até fazer um “cardápio” mais atrativo e bem humorado de nossos temas de conversas.
Precisamos melhorar a oração em quantidade e em qualidade, buscando a intimidade com Deus por meio de nossas palavras e de nossa adoração e contemplação. Precisamos dedicar mais do nosso tempo àquilo que nos é essencial; nossa conversa diária com Ele, nosso “olho no olho” das pessoas a quem queremos bem, nossas atitudes em prol de quem precisa, nosso momento de escuta íntima conosco. Penso que nossa agenda para estes dias precisa incluir este planejamento.
Mesmo ante o abarrotado calendário das “confraternizações” que se avizinham ou dos chamados para as compras (para se endividar até o próximo Natal); penso que, na contramão de todo este turbilhão que descristianiza a pobreza necessária de quem se abandona em Deus, precisamos urgentemente viver a espera de um tempo de graça, de paz e de harmonia, encontrar a presença de Deus nas pequenas coisas e nos mais simples gestos de ternura e de caridade; hora de decorar o nosso coração desde já, como manjedoura aconchegante para Jesus que nos vem.
Texto publicado no Jornal "Voz de Nazaré" - edição de 22 de novembro de 2012
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