Um dos mais conceituados poetas, músico e cantor cearense, Fagner, canta em uma de suas belas composições que “o homem também chora, também deseja colo, palavras amenas, precisa de carinho, de ternura, de um abraço”. Chorar é próprio e exclusivo da criatura humana, chorar é fruto de dor espiritual, de sofrimento; mas pode ser resultado ou efeito de alegria, de felicidade. Dizem até que há “lágrimas de crocodilo”, falsidade disfarçada de sensibilidade. Chorar é o nosso “estamos aí” no mundo, assim “provamos” que nascemos com pulmões sadios; talvez por isso, o choro nos é tão familiar, íntimo, maternal.
Choramos por diversas razões e de diversas formas; algumas espalhafatosas ou eufóricas; outras, retiradas, silenciosas, em quase imperceptível manifestação. Choramos às vezes, “pra dentro”, acompanhados de soluços ou apenas do nosso respirar mais forte. Chorar, às vezes, tem motivo; outras vezes não; não importa, o que vale mesmo é que o choro nos conforta e muito nos alivia, é o que desata o nó da angústia e nos humaniza.
Ao ver as imagens do Círio 2012, fiquei inquieto com minhas lágrimas, procurando entender porque choramos quando algo acaba, quando aquilo que tanto amamos finda, mesmo que temporariamente, e perguntei o porquê de chorarmos quando nos aperta no peito a saudade. Lembrei-me, quando garoto, me despedia, ao final do mês de julho, da minha querida ilha do Mosqueiro, após algumas semanas das férias escolares. Era então que meu peito apertava e eu voltava para Belém silenciosamente, olhando a chuva molhar os vidros do carro, como a chorar comigo também, em um "até logo" que se repetiu por toda a minha infância.
Terminado mais um período do Círio, o maior de todas as suas 220 edições, tive a mesma sensação de saudade, ao ver as imagens do povo nas ruas, das pessoas em prantos de alegria ou de súplica, olhando a pequenina imagem de Maria a “navegar” nos braços do povo que se uniu em mais um período de fé mariana nas romarias que somaram quase 5 milhões de pessoas; a pedir, agradecer ou simplesmente, contemplar aquela que, com o Jesus menino no colo, diz novamente para toda a humanidade: _ Fazei tudo o que Ele vos disser!
Quando o Arcebispo de Belém dizia aos profissionais da imprensa para não segurarem as lágrimas, falava da humanidade de cada um e de cada uma, que na cobertura do Círio, também estiveram como devotos, à sua maneira, lembrei que todos nós também somos assim; aprendemos a conter nossas emoções e a disfarçar nossa humanidade com os rótulos de profissionais isentos de emoção; mas a Mãe de Deus nos traz mais esta orientação, expressa na voz de Dom Alberto, na manhã após o Recírio, que em outras palavras nos falou carinhosamente para sermos como
crianças na manifestação do amor por meio de nossas lágrimas.
Chorar nos faz muito bem e estas lágrimas de amor e de saudade de mais um Círio que termina são também lágrimas de esperança pelo Círio que vem e por tantos Círios que queremos viver neste caminhar juntinho ao colo da Mãe, até nosso encontro definitivo com seu Filho. Não sei se há como racionalizar o que sentimos, presumo que isto nos é impossível; só tenho a certeza de que é muito bom ser paraense, da gema ou do coração; é muito bom ser católico, é muito bom sentir-se amado por nossa Mãe Maria. Bendita a lágrima que escorre suavemente de nossos olhos, no pranto de amor e de pedido, repetido tantas vezes no refrão melodioso: Dá-nos a benção, Senhora de Nazaré!
Texto publicado no jornal Voz de Nazaré - edição de 1/11/2012

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