Por um vinho novo
Recentemente, órgãos de imprensa destacaram, alguns até com mórbido prazer, os dados do Censo Demográfico 2010, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE, acerca de duas questões de extrema importância para nosso futuro: o aumento do número de divórcios em mais de 100% nos últimos dez anos e a queda; tanto no número de casamentos, quanto do número de filhos nas famílias.
Creio ser esta mais uma triste constatação do que nossa cultura tem adotado como orientador: o individualismo; expresso nas diversas formas de manifestação; seja da economia, da política ou da arte. Penso que tais dados, são o resultado de relacionamentos muito comuns hoje em dia; possivelmente, sem orientação acerca da solidez necessária para uma decisão tão importante como a vida conjugal, a qual precisa vir de uma análise madura, responsável, refletida, após um período de namoro capaz de cultivar laços duradouros, com estrutura de diálogo, de escuta ativa e com o elemento para nós mais importante: a presença do Cristo, unindo homem e mulher que se amam.
Penso que, talvez, tenha faltado aos que hoje estão separados um olhar de acolhimento, uma orientação baseada no amor, uma chamada ao compromisso com o "sim" dado no altar; talvez tenha faltado "joelho no chão" quando as coisas começaram a dar sinais de desgaste.
Talvez também tenha sido silenciado o testemunho do vinho da alegria de amar por parte de outros casais a esclarecer sobre a decisão irreversível que tomariam. Será que faltou gente para alertá-los que a vida matrimonial é um dom e é fruto do nosso trabalho, sol a sol? Faltou alguém dizer a eles que casar é querer a felicidade do outro? Talvez. Como talvez tenha faltado a comunicação do sabor do vinho que compromete, da indissolubilidade e da fidelidade, da abertura à fecundidade espiritual e ao dom da procriação. Talvez. Como refletia o beato João Paulo II, em suas catequeses sobre o amor humano; quando ensinava sobre o espaço entre homem e mulher, que mesmo com a atração física em alto nível a arder na paixão recíproca, não poder ser totalmente preenchido; se este espaço não for ocupado por Jesus a unir em si a humanidade criada, o mesmo pode ser trabalhado pelo inimigo, que quer cultivar no coração humano o egoísmo; vício que mina qualquer relacionamento cuja base não tenha sido o trabalhar pelo bem de quem se ama; o que, no caso do matrimônio, é uma decisão de amar seu cônjuge, mesmo com suas limitações, mesmo com a ciência dos sofrimentos que isto traz.
Muitas perguntas nos provocam; mas em resumo, penso que não há culpados isolados quando tudo fracassa, mas responsáveis, quer por ação ou por omissão, em diversas etapas, onde incluímos também todos nós, membros de uma geração que pouco testemunhou o amor e que tem permitido o avançar do egoísmo a macular a pureza do amor conjugal.
Pergunto portanto, acerca dos números informados pelo IBGE: Como estes relacionamentos que se desfizeram foram edificados? Como estes homens e mulheres se preparam para a vida a dois? Como se posicionaram ante possibilidade de gerarem vidas? Como enfrentaram as dificuldades trazidas pela rotina ou pela indiferança? Em resumo: Como planejaram em seus corações construir a história de sua vida em comum, de sua família? Por isso, penso que todos temos responsabilidade diante deste triste panorama de nossa sociedade. Daí um alerta, que considero importante para os jovens e adultos que querem dar-se em matrimônio: quando o divórcio é colocado como possibilidade real e até mesmo, com naturalidade entre os futuros cônjuges, na base do “que seja infinito enquanto dure”, como cantava o poeta, já há uma fragilidade na própria decisão adotada para a vida juntos; penso que considerar a separação como algo provável “se o amor acabar”, como dizem alguns, é semear, desde o início, ou até antes dele, o joio do egoísmo e da aceitação passiva de um fracasso e assim, perder antecipadamente uma batalha crucial para o inimigo, ante a passividade ou a indiferença à união que, pelo Cristo, foi elevada a sacramento.
Talvez, por isso, como conseqüência de um número cada vez maior de separações e da facilidade com que se divorcia em nosso país, mais ainda se deixam "para mais tarde" o "sim" nupcial e ampliam-se o número de “experimentos”, de “testes” para com o outro e consequentemente, aumentam os ressentimentos e até a aversão ao casamento, que em muitos casos, é percebido apenas com um evento social, sem a dimensão de ser resposta de fé. Daí advém tantos traumas e mágoas causadas pela imaturidade nas decisões tomadas por parte de quem ainda não percebeu o valor da união conjugal, mas vê o outro apenas como uma propriedade, um objeto, que aliado a uma distorcida educação sexual, resumida à genitalidade e a violência doméstica em suas mais diversas manifestações, não pode dar outro resultado que não seja a tristeza das separações, que não raramente, atingem os filhos, reivindicados primeiramente como um "direito", mas, ante as separações, muitas vezes abandonados à própria sorte, órfãos de pais vivos.
Que grande responsabilidade temos junto aos tantos jovens que caminham em seu namoro, noivado, pensando dar-se em casamento, os quais encontramos todos os dias em nossas ruas, nas nossas famílias, em nossas comunidades, em nossas paróquias. Penso que eles precisam urgentemente entender o valor do sacramento do matrimônio pelo testemunho de nossas vidas. Creio ser urgente nos interessarmos por eles, acompanhá-los, investir tempo para orientá-los, mostrar e eles a necessidade de uma decisão madura, refletida, adulta.
Casamento não é experiência, teste, aposta, mas uma radical abertura a Deus, resposta ao chamado do Criador, sacramento de serviço, canal de graças, caminho de comunhão. Por isso, penso ser necessário, por parte de todos aqueles que tem buscado santificar dia a dia seu matrimônio e com responsabilidade, assumido sua missão pela felicidade do outro, e isto inclui investir constantemente neste relacionamento; o testemunho das graças, das alegrias, da forma de superar as dificuldades com confiança, fé e esperança em Deus.
É preciso dizer aos nossos jovens, que investem em um relacionamento a dois, como é possível perceber a água transformada em vinho em seu relacionamento conjugal diário, fruto de constante trabalho, cultivo, oração e amor que, com Deus, é sempre vinho novo, renovado, abençoado. Testemunhar não a inexistência de sofrimento; posto que isto é impossível em nossa contingência, mas a fortaleza que Deus nos dá para superar os problemas, na confiança que o matrimônio é sinal visível de uma realidade querida por Deus e por ele cuidada com carinho. Realidade que em Maria tem uma referência maravilhosa, daquela que soube ser esposa e mãe, esteio da Sagrada Família que nos aponta sempre o caminho do céu: seu Filho Jesus.
Artigo publicado no Jornal Voz de Nazaré - edição de 17 de maio de 2012 (Coluna Sal e Luz - Leno Carmo)