sábado, 13 de outubro de 2012


Ao encontro dela...

Meu coração já bate forte. Daqui a pouco, se Deus o permitir, verei ela chegando, mais uma vez, nas ruas de nossa pequenina cidade, nas vias de Nazaré, nos braços do nosso povo simples e de toda a gente que vem de balsa, de ônibus, à pé, de carro ou avião, ou que assiste, emocionado, seu caminhar, participando e interagindo, todos juntos, pelas ondas de rádio, TV ou web,  com um mesmo propósito: Estar, de alguma forma, pertinho dela; fisicamente ou “de coração”, para agradecer, pedir, sorrir ou mesmo ficar sem fazer nada, só admirando a pequenina imagem que nos apresenta Jesus em seu colo, um presente que recebemos todos, diretamente do céu para o nosso coração. 

No frisson de mais um segundo domingo de outubro que se aproxima, o friozinho na barriga aumenta; mas, não podia ser diferente; é Círio em nossa terra, em tantos corações; alegria de ser paraense, como os daqui mesmo e até como os “de fora”, que adotaram nossa “terrinha” pela devoção à mãe querida.

Já vivi muitos Círios, acompanhei romarias, ajudei a adornar tantos espaços. Como tantos paraenses, cantei para ela muitas vezes e chorei outras tantas ao vê-la passar, simbolizada na pequenina imagem que aprendi a compreender em sua catequese: Maria nos apresenta Jesus; Caminho, Verdade e Vida. Em todas as oportunidades que estive pertinho dela, agradeci a Deus por poder dizer que a amo; este tesouro que partilho com minha família e com quem quiser ouvir: Sou feliz por ser católico!

Outubro me traz as lembranças de tantos destes anos vividos, retratados em minha memória cabocla, gravados com tinta terna, materna, lá no fundo do coração. O Círio me evoca o acompanhar da procissão sob o sol escaldante e o barulho das homenagens que tanto me emocionam até hoje; a sirene que silencia as vozes e se integra às preces por Maria; as mãos fortes de minha mãe, que tantas vezes me guiou quando, pequenino, não via mais nada, a não ser as cores de suas roupas entre as “puxadas” enérgicas para que eu não ficasse perdido na multidão que caminha em direção à casa de Maria.

Círio é lembrança viva, que me evoca, quando, ao final da romaria, fazia minhas inesquecíveis caminhadas de menino, contemplando os brinquedinhos de miriti, os multicoloridos bonecos, carrinhos, jogos, atrativos divertidos espalhados no chão da avenida Magalhães Barata ou na extensão da “14 de março”, onde eu andava sem pressa e sem cansaço, até conseguir levar para casa a lembrança que mais me agradava e que “cabia no bolso” de meu pai. Para mim, era como um pequeno troféu de mais um domingo de festa católica, de festa da família e em família, devidamente selada pelas fitinhas coloridas no punho, onde meus pedidos eram, comumente, distribuídos pela saúde de algum amigo ou parente enfermo, pela paz em casa e no mundo, e, como ninguém é de ferro, pelos desejos de criança, por brinquedos ou merecidas férias com a 
aprovação na escola, ao final do ano que se avizinhava.

À noite, roupa limpa, algumas vezes nova, outras nem tanto; mas ao menos de pouco uso, no retorno ao “arraial”. Espera impaciente pelo término da missa, que apesar de ter um sabor especial na Basílica, com suas cores e sua beleza inigualável, retardava o que eu queria muito; entrar no mundo mágico do “parque” e lá, viver o prazer de brincar na roda-gigante, nos carrinhos elétricos ou no temido “trem fantasma”; aproveitar das guloseimas que ganhavam um gosto especial pela música, pelas cores; delícias onde a “maçã do amor” tinha sempre um lugar especial, reservada para, ao final, coroar mais uma noite de alegria infantil que acalmava meu coração de garoto apaixonado pelo outubro paraense e me trazia o sono tranqüilo das crianças.

Hoje, vivo novos círios, de um jeito diferente, às vezes empresto a voz para ajudar o povo a caminhar e junto à Rose, partilho o dom que Deus me concedeu para por a serviço do povo que caminha, como outrora, pelas ruas de nossa cidade, nos braços de Maria. Espero que meus pequenos construam esta saudade gostosa que tive a oportunidade de viver com meus pais; vivendo a festa regada no amor, na união dos corações para agradecer a mãezinha por sua intercessão junto ao Filho, por nossas vidas.

Círio é festa de fé, de amor espalhado em cada cantinho de Belém e do mundo, que se prepara para viver mais um outubro como se o tempo parasse na ermida de Plácido; como se todos nós, juntos, ao menos por alguns instantes, pudéssemos nos olhar como irmãos; sem ódio, rancor, mágoa, tristeza, ressentimento e assim, neste sentimento, dizermos, uns aos outros, na amizade de filhos de Deus: _ Feliz Círio, meu irmão; feliz Círio, minha irmã!

Texto Publicado no jornal Voz de Nazaré - edição de 12 de outubro 2012