Ao encontro dela...
Meu coração já bate forte. Daqui a pouco, se Deus o
permitir, verei ela chegando, mais uma vez, nas ruas de nossa pequenina cidade,
nas vias de Nazaré, nos braços do nosso povo simples e de toda a gente que vem
de balsa, de ônibus, à pé, de carro ou avião, ou que assiste, emocionado, seu
caminhar, participando e interagindo, todos juntos, pelas ondas de rádio, TV ou
web, com um mesmo propósito: Estar, de alguma forma, pertinho dela;
fisicamente ou “de coração”, para agradecer, pedir, sorrir ou mesmo ficar sem
fazer nada, só admirando a pequenina imagem que nos apresenta Jesus em seu
colo, um presente que recebemos todos, diretamente do céu para o nosso
coração.
No frisson de mais um segundo domingo de outubro que se
aproxima, o friozinho na barriga aumenta; mas, não podia ser diferente; é Círio
em nossa terra, em tantos corações; alegria de ser paraense, como os daqui
mesmo e até como os “de fora”, que adotaram nossa “terrinha” pela devoção à mãe
querida.
Já vivi muitos Círios, acompanhei romarias, ajudei a adornar
tantos espaços. Como tantos paraenses, cantei para ela muitas vezes e chorei
outras tantas ao vê-la passar, simbolizada na pequenina imagem que aprendi a
compreender em sua catequese: Maria nos apresenta Jesus; Caminho, Verdade e
Vida. Em todas as oportunidades que estive pertinho dela, agradeci a Deus por
poder dizer que a amo; este tesouro que partilho com minha família e com quem
quiser ouvir: Sou feliz por ser católico!
Outubro me traz as lembranças de tantos destes anos vividos,
retratados em minha memória cabocla, gravados com tinta terna, materna, lá no
fundo do coração. O Círio me evoca o acompanhar da procissão sob o sol
escaldante e o barulho das homenagens que tanto me emocionam até hoje; a sirene
que silencia as vozes e se integra às preces por Maria; as mãos fortes de minha
mãe, que tantas vezes me guiou quando, pequenino, não via mais nada, a não ser
as cores de suas roupas entre as “puxadas” enérgicas para que eu não ficasse
perdido na multidão que caminha em direção à casa de Maria.
Círio é lembrança viva, que me evoca, quando, ao final da
romaria, fazia minhas inesquecíveis caminhadas de menino, contemplando os
brinquedinhos de miriti, os multicoloridos bonecos, carrinhos, jogos, atrativos
divertidos espalhados no chão da avenida Magalhães Barata ou na extensão da “14
de março”, onde eu andava sem pressa e sem cansaço, até conseguir levar para
casa a lembrança que mais me agradava e que “cabia no bolso” de meu pai. Para
mim, era como um pequeno troféu de mais um domingo de festa católica, de festa
da família e em família, devidamente selada pelas fitinhas coloridas no punho,
onde meus pedidos eram, comumente, distribuídos pela saúde de algum amigo ou
parente enfermo, pela paz em casa e no mundo, e, como ninguém é de ferro, pelos
desejos de criança, por brinquedos ou merecidas férias com a
aprovação na
escola, ao final do ano que se avizinhava.
À noite, roupa limpa, algumas vezes nova, outras nem tanto;
mas ao menos de pouco uso, no retorno ao “arraial”. Espera impaciente pelo término
da missa, que apesar de ter um sabor especial na Basílica, com suas cores e sua
beleza inigualável, retardava o que eu queria muito; entrar no mundo mágico do
“parque” e lá, viver o prazer de brincar na roda-gigante, nos carrinhos
elétricos ou no temido “trem fantasma”; aproveitar das guloseimas que ganhavam
um gosto especial pela música, pelas cores; delícias onde a “maçã do amor”
tinha sempre um lugar especial, reservada para, ao final, coroar mais uma noite
de alegria infantil que acalmava meu coração de garoto apaixonado pelo outubro
paraense e me trazia o sono tranqüilo das crianças.
Hoje, vivo novos círios, de um jeito diferente, às vezes
empresto a voz para ajudar o povo a caminhar e junto à Rose, partilho o dom que
Deus me concedeu para por a serviço do povo que caminha, como outrora, pelas
ruas de nossa cidade, nos braços de Maria. Espero que meus pequenos construam
esta saudade gostosa que tive a oportunidade de viver com meus pais; vivendo a
festa regada no amor, na união dos corações para agradecer a mãezinha por sua
intercessão junto ao Filho, por nossas vidas.
Círio é festa de fé, de amor espalhado em cada cantinho de
Belém e do mundo, que se prepara para viver mais um outubro como se o tempo
parasse na ermida de Plácido; como se todos nós, juntos, ao menos por alguns
instantes, pudéssemos nos olhar como irmãos; sem ódio, rancor, mágoa, tristeza,
ressentimento e assim, neste sentimento, dizermos, uns aos outros, na amizade
de filhos de Deus: _ Feliz Círio, meu irmão; feliz Círio, minha irmã!
Texto Publicado no jornal Voz de Nazaré - edição de 12 de
outubro 2012

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