O Legado de Bento XVI - Dedicação à
Igreja
Por Felipe Aquino (portal Canção Nova)
O Papa Bento XVI deixa um legado
extraordinário à Igreja e ao mundo; uma vida inteira dedicada a ela com todo
ardor, humildade e zelo apostólico. Desde padre jovem, participou do Concílio
Vaticano II (1963-1965) como assessor teológico de seu bispo. Depois, viveu
intensamente sua vida na Alemanha como bispo e cardeal. Foi eleito como um dos
únicos sacerdotes da Academia de Ciências do Vaticano.
Durante 25 anos, foi Prefeito da “Sagrada
Congregação da Doutrina da Fé” do Vaticano, braço direito do Papa João
Paulo II, seu grande amigo. Nessa função, teve de enfrentar as heresias
modernas de uma teologia da libertação marxista, empolgada com uma falsa
“igreja popular” que nasce do povo e não de Deus e de Seu Filho Jesus. Com
firmeza, o então cardeal Ratzinger teve de enfrentar as injustas e maldosas
críticas dos falsos profetas apoiados pela mídia secular. Foi obrigado a punir
teólogos desviados da “sã doutrina” como Leonardo Boff e Jon Sobrino, estrelas
da TL.
Ele foi um profeta que sempre falou
de Deus com a fidelidade e a coragem dos grandes personagens bíblicos. Não teve
medo de enfrentar e continuar os erros da teologia da libertação marxista,
pedindo aos bispos do Brasil, em 05/10/2010, que a eliminassem de suas dioceses
tendo em vista o seu grande perigo para a Igreja e para a fé do povo. Disse:
“As suas sequelas, mais ou menos visíveis, feitas de rebelião, divisão,
dissenso, ofensa, anarquia fazem-se sentir ainda, criando nas vossas
comunidades diocesanas grande sofrimento e grave perda de forças vivas.”
O Conclave que
o elegeu Papa foi rapidíssimo; os cardeais eleitores entenderam com clareza que
não havia outro gigante à altura de substituir João Paulo II no comando da
Barca de Pedro.
Logo que assumiu o pontificado,
iniciou sua luta contra o que chamou de “ditadura do relativismo”, a qual nega
toda verdade e ensina que cada um faz a sua, algo que destrói a família e a
sociedade. O Papa é o paladino e arauto da verdade que salva (cf. Catecismo
§851). Ele mostrou que o relativismo “mortifica a razão, porque ensina que o
ser humano não pode conhecer nada com certeza além do campo científico
positivo”.
Bento XVI, de maneira afável,
humilde e reservada, com palavras moderadas e profundas, fez um trabalho
apostólico fundamental superando as declarações desviadas dos que “querem uma
Igreja desestruturada e que pregam uma teologia libertária, bem longe da
verdadeira libertação preconizada na Bíblia”, como disse o
Cônego José Vidigal.
Aos bispos que ordenou, no último
dia dos reis magos, ele deixou claro que a Igreja não vai mudar só para
agradar. “A aprovação da sabedoria predominante não é o critério a que nos
submetemos. Por isso, a coragem de contrariar a mentalidade prevalecente é
particularmente urgente para um bispo. Ele deve ser corajoso.”
Bento XVI “é um dos maiores
intelectuais do mundo contemporâneo e tornou-se um dos mais notáveis Pontífices
da História da Igreja”, disse o Dr. Ives Gandra Martins.
O Papa deixa-nos três encíclicas
fundamentais: Deus
caritas est, Spes
salvi e Caritas
in veritate, que precisam ser estudadas detalhadamente, porque apontam
soluções claras para os problemas do mundo moderno. Elas nos mostram o perfeito
conhecimento de todos os problemas da realidade mundial a partir do homem,
procurando salvar os verdadeiros valores da humanidade.
Bento XVI abriu um diálogo profundo
com os intelectuais, especialmente os ateus, com o Programa “Pátio dos
Gentios”, levando o debate a eles nas maiores universidades do mundo, buscando
quebrar a mentira de que entre a ciência e a fé haja uma dicotomia.
O Papa deixa-nos uma quantidade
imensa de excelentes livros, especialmente a série “Jesus de Nazaré”, escrita
durante o pontificado, mostrando a realidade histórica de Jesus e a
coincidência do Cristo da fé com o da História. Dr. Ives Gandra disse que “talvez
tenha sido, em 2 mil anos de história da Igreja, o pontífice mais culto e o que
mais escreveu”.
Bento XVI foi um Papa corajoso; não
teve medo de enfrentar as acusações injustas que recebeu de ter sido omisso diante
dos casos de pedofilia, e agiu com energia para corrigir o problema. Não se
curvou diante de tantas blasfêmias contra ele, como a recente e deplorável peça
de teatro na PUC de São Paulo (Decapitando o Papa). Por outro lado, não se
curvou diante de um feminismo barulhento, também interno à Igreja, e de um
modernismo vazio que quis lhe impor a quebra do celibato sacerdotal, a
aceitação da ordenação de mulheres e outros erros.
Tal como um novo São Bento de
Núrcia, Bento XVI deu início ao reerguimento do Ocidente. O primeiro enfrentou
os bárbaros com seus monges cultos e santos espalhados em toda a Europa; o novo
Bento enfrentou os “novos bárbaros” que não saqueiam casas e cidades, mas matam
as almas e os valores e civilização cristã que tanta luta e sangue custaram dos
filhos da Igreja.
Bento XVI soube interpretar e
defender o Concílio
Vaticano II dos ataques injustos que recebeu tanto dos
ultraconservadores que quiseram ver nele as causas dos problemas da Igreja e do
mundo, bem como dos avançadinhos ultramodernos que querem ver no Concílio um
absurdo “rompimento da Igreja com seu passado”. O Papa soube dar continuidade à
“Primavera da Igreja”, a qual o Concílio nos trouxe, como disse João Paulo II.
E agora nos deixa o “Ano da Fé” e a proposta de uma nova evangelização.
Mesmo a renúncia de Bento XVI é um
legado importante para a posteridade, porque é um gesto de profunda humildade e
desapego, corajoso, coerente e fervoroso. Um ato de desprendimento das coisas
terrenas, num tempo em que todos se apegam ao poder para se promover, para
fazer valer a sua vontade etc. Penso que essa decisão histórica do Papa fará
com que outros tenham a mesma coragem de repetir o seu gesto quando isso for
necessário.
Professor Felipe Aquino