Decidir-se pelo bem
Esta semana, conversava com um amigo acerca da
dificuldade para educar os filhos atualmente, com o tempo que temos com eles
versus a diversidade e quantidade de informações que recebem todos os
dias, por meio da tv ou pela web, nos portais e redes sociais que abarcam um
número expressivo de pessoas, de várias idades e das mais variadas culturas,
intenções e valores.
Lembrava que, no mundo virtual, há um grande leque de
possibilidades comunicacionais, motivando pessoas a buscarem mais e mais
informações, imagens e animações; enfim, um sem número de estímulos visuais que
povoam o imaginário de qualquer um e que interferem na forma de pensar e de se
comportar, gerando até mesmo possibilidade de fuga da realidade e mascaramento
de situações como o sofrimento, as frustrações ou a dor; elementos importantes
no processo de amadurecimento de qualquer pessoa humana, mas que são evitados
por muitos, a todo custo, gerando problemas de diversas ordens; quer nos
relacionamentos do indivíduo consigo, com Deus ou com o outro.
Refleti o quanto somos desafiados, como pais, diante das
ideologias, das mentiras e contra-valores que são ofertados, frequentemente,
aos nossos jovens. Por outro lado, destaquei o quanto a educação de valores, o
testemunho e a religião podem contribuir para que eles tenham condições mínimas
de assumir posturas coerentes e refletirem, de forma equilibrada, antes da
tomada de decisões perante a realidade, diante dos convites, até de conhecidos,
para agirem ou deixarem de fazer algo, em situações das mais variadas, que
podem colocá-los em risco.
Diante destas questões, externei que nosso compromisso com
os pequenos, além de testemunhar o valor do caminho do bem também é de
ajudá-los para que tomem decisões coerentes com aquilo que crêem e com os
valores que foram trabalhados em família.
Neste rumo, creio que tomar decisões, ao contrário do que
alguns pensam, não é fruto de intuição ou emoção, mas do uso adequado da
inteligência que possuímos todos, do treino contínuo da análise, que contabiliza:
a capacidade de compreender a realidade, de avaliá-la, mensurar possíveis
conseqüências e assim fazer a escolha mais acertada; tomando uma decisão por
vez; por exemplo, pois em muitos casos, um problema é o somatório de pequenas
questões. Ao decidir-se individualmente, aumentamos a capacidade de acerto, uma
vez que a resposta é mais rápida e visível.
Ser transparente, sincero consigo e com os outros; objetivo,
direto é também importante para manter a decisão. Muitos casos de envolvimento
com álcool e com drogas, por exemplo, nasceram da pouca objetividade e da
indecisão na hora de dizer “não”, além da necessidade do afastamento, de forma
clara, da pessoa ou situação que possa oferecer ou representar riscos.
Outra atitude importante é a coleta de informações prévias
para só depois decidir. Tranquilidade, equilíbrio e informação confiável dão
maior segurança e a certeza necessária para não voltar atrás. Para isso,
podemos cultivar com os pequenos: a beleza do conhecimento construído junto à
família, a partilha de informações, a valorização das inquietações e “porquês”
que muitos pais, inadvertidamente, reprimem; às vezes, até por vergonha de não
saber.
É preciso também “economizar palavras”, evitando as que são
desnecessárias e que podem dar margem a novos questionamentos e a semeadura de
dúvidas. Como nos ensina o evangelho de Mateus (5:37), dizer apenas “sim” ou
“não”, nada mais.
Por fim, creio ser necessário, de certa forma, “marcar”
nossas decisões, dar a elas um “selo”, um registro, o peso de uma decisão
expressa, manifesta, refletida, segura.
Tomar decisões, penso que é ter a capacidade de avaliar com
clareza a realidade, suas possibilidades e conseqüências e assim, escolher o
que melhor corresponde com nossa identidade como pessoa humana e como
católicos. Este é um legado importante para ajudar nossos filhos a enfrentarem
o desafio de viver em um mundo com muitas sombras, mas que ainda há luz para os
que a procuram. Ajudando-os a amadurecer também é expressão de cuidado e de
esperança em quem amamos.
Texto publicado no jornal Voz de Nazaré de 23.08.2012.
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