quinta-feira, 28 de junho de 2012

Por uma vida sóbria, por uma vida plena III

Este é o artigo final deste tema, pelo menos por enquanto, refletindo sobre o alcoolismo em muitas famílias, um mal que atinge cerca de 10% da população mundial; ou seja, quase 700 milhões de pessoas, segundo pesquisa recente da Universidade de Harvard, nos EUA.

Nos artigos anteriores, procurei trazer à tona algumas questões que considero importante acerca deste assunto; como as estatísticas altamente negativas do álcool em suas relações com a violência no trânsito, com a violência contra as pessoas, com os danos, muitos dos quais irreversíveis, à saúde física, ao aspecto moral de homens e mulheres que tem mantido uma ligação, um vínculo, até às vezes de afeto, com o álcool, usado como desculpa, argumento, suporte para situações-limite do cotidiano ou como extravasamento, fuga, escape.

Neste itinerário, refleti também sobre como, pela oração e pela compreensão do nosso corpo como templo do Espírito, como ressalta São Paulo, também é possível evitar o “primeiro gole”; bem como pontuei algumas alternativas de atendimento e apoio capaz de manter a sobriedade, conseguida com sacrifício e renúncia.

Às portas de mais um período de férias escolares, com muito sol, praia, diversão e festas, penso que é urgente estarmos em alerta para o aumento potencial no risco que corremos de ter no álcool um possível “companheiro” de lazer, quase inseparável acompanhante “de todas as horas”.

Em razão disto, afirmo com todas as letras: o álcool é um inimigo a ser enfrentado com seriedade, perseverança e coerência; não é algo para se oferecer como um produto bom para ninguém, principalmente para os jovens, mas uma oferta cujas conseqüências são inimagináveis e por vezes, até trágicas. E este inimigo está disposto para nossa destruição, se não for dominado e em grande parte dos casos, mantido à distância; quer quando ele vem travestido de “cervejinha”, “caipirinha” ou de cachaça.   

Para um dos maiores estudiosos sobre os males que o álcool traz, George E Vailant, psiquiatra americano, hoje com 65 anos, sendo trinta dedicados aos estudos deste mal, o alcoolismo é um problema cujas dimensões são trágicas e ainda sem compreensão de seus efeitos nocivos.

Sem dúvida, o grande drama do alcoolismo é a destruição de famílias inteiras, afirma o estudioso, que atestou que nos EUA 50% de todas as crianças atendidas nos serviços psiquiátricos vem de famílias de alcoólatras e boa parte dos casos de abusos sexuais cometidos contra crianças, principalmente no interior de muitos lares, tem raiz no alcoolismo.

O alcoólatra é, portanto, alguém que vem perdendo sua capacidade de decisão e sua liberdade de parar de beber gradativamente, até se percebe entregue, preso, atado ao próprio vício, em diversas situações, voluntariamente.

Afundando-se neste péssimo hábito, leva para as trevas também com ele, as pessoas que o amam, que morrem um pouco a cada embriaguês que testemunham, embriaguês que coloca em risco de morte tantas pessoas que por ele choram a dor da impotência diante da passividade do doente que parece ter desistido de lutar por si mesmo e entregue à escravidão do pecado, do vício, da insensatez.

Neste caminho de reflexão, penso ser óbvio não cairmos no simplismo de afirmar que apenas fatores genéticos são determinantes no tocante ao alcoolismo; uma vez que as condições sociais, ambientais, relacionais, culturais levam muitas pessoas a aderir ao vício cujas razões são as mais diversas, subjetivas e complexas.

Talvez um importante passo para quem não deseja enveredar por este caminho ou pretende urgentemente abandonar este mal é a percepção que o alcoolismo é algo grotesco, que não pode ser associado a alegria, diversão, festa, vida, que ficar “de porre” em nada é engraçado, mas degradante.

Creio que é preciso honestidade em muita programação de televisão que estimula o consumo do álcool, associando-o ao sucesso, relacionando-o às comemorações, à saúde, à amizade, à juventude. O que não se revela, no entanto, é que depois dos primeiros instantes de alegria frágil nos goles iniciais, vem o início de uma depressão que pode levar o indivíduo a atitudes vexatórias e até autodestrutivas.

Assim, caríssimos, encerro este texto, cujo objetivo, junto com os demais, foi provocar reflexões sérias acerca deste mal, na esperança que as pessoas lembrem de, pelo menos, três aspectos que considero fundamentais neste caminho de abertura: primeiro, na percepção que o alcoolismo é uma doença psiquiátrica, crônica, que pode destruir o indivíduo em todas as suas dimensões – biológica, psicológica, social e espiritual e por extensão, sua família e até a sociedade, cujo prejuízo que paga  com o vício é uma enormidade de dinheiro, tempo e recursos públicos.

Segundo, que a vitória da sobriedade é o resultado do apoio das pessoas que amamos, de nossa família, de muitos conhecidos que sabem a importância de um abraço acolhedor e compreensivo;   e  terceiro, que a força para superar este mal está na percepção e valorização de cada pessoa humana como imagem e semelhança de Deus, razão de ser de sua dignidade e motor de sua fé e esperança no Pai, para o qual nada é impossível. Ele, que tudo pode e realiza,  ama a criatura humana, ama você.

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