sexta-feira, 1 de junho de 2012


Por uma vida sóbria, por uma vida plena - I

Neste e nos próximos artigos que tenho a oportunidade de propor neste espaço do “Voz”, quero pontuar alguns aspectos que considero como relevantes em um problema, que a cada dia afeta mais e mais pessoas e que está presente de forma lamentável no cotidiano de muitas famílias; inclusive  católicas; muitas das quais até comprometidas com o anúncio da Palavra, com a prática da caridade, com a vida da Igreja, mas que padecem dos sofrimentos advindos do vício do álcool entre seus membros.

Como doença que é, o alcoolismo não distingue ninguém, seduz a tantos homens e mulheres honestos, trabalhadores, piedosos; presos, no entanto,  nas “garras” deste mau hábito que ao longo do tempo e da história tem gerado mortes físicas e morais e tem contribuído de forma decisiva em tantos problemas, como nos acidentes de trânsito, nos crimes contra a vida, na violência doméstica, no aparecimento e agravamento de doenças graves, na desagregação de famílias, na perda de emprego e até na perda da vontade de viver.

Consciente que este problema é doloroso e até constrangedor, proponho, antes, tomarmos o cuidado de refletir sobre como somos levados a suavizar este mal, conduzidos pelas mídias que, em geral, associam o álcool, seja nas propagandas, nas novelas e nas outras formas de arte, ao sucesso e até mesmo à saúde. Para isso, basta ligarmos a televisão ou “navegarmos” pela web para vermos nas propagandas de bebidas tanta gente jovem e bonita, homens e mulheres com a expressão de felicidade, bem sucedidos, esbeltos, sóbrios, inteligentes. Pergunto, no entanto: Onde estão os alcoólatras das calçadas, as vítimas desta doença jogadas nos hospitais, muitas vezes abandonados pela família, jogados à própria sorte? Onde estão as crianças abandonadas, a miséria e a fome, o desemprego e a vergonha das famílias atingidas pelas conseqüências deste pecado? Na contramão da inverdade midiática, lembremos o alerta de São Paulo em sua carta aos Romanos (12,22): “Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos, renovando vossa maneira de pensar e julgar, para que possais distinguir o que é da vontade de Deus, a saber, o que é bom, o que lhe agrada, o que é perfeito.” O Apóstolo dos Gentios evoca em nós a capacidade de distinguir o que nos é bom daquilo que nos destrói. Não tomemos, portanto, a “forma deste mundo”, evitemos com esperança, fortaleza e fé aceitarmos ser moldados pelo apelo ao consumo, ao prazer desregrado, a um contra-testemunho de nossa missão como batizados.

No exemplo da carta paulina, somos chamados a um permanente estado de vigilância e de conversão, como manifestação da vida nova, na alegria e na liberdade que Cristo nos oportuniza com sua morte e ressurreição; por isso, pensemos e rezemos para que o discernimento nos leve a adoção de atitudes efetivas, tanto para nós mesmos quanto para ajudar tantos irmãos e irmãs, alguns até da nossa casa, na orientação, na denúncia e no anúncio da Boa Nova que, como cristãos, trabalhamos em nossa família e na sociedade como pessoas comprometidas com o Reino de Deus e com a plena convicção do nosso corpo como “templo do Espírito” (1 Cor 6,19) e não como local de prática destrutiva.

Considerado pelos especialistas como “porta de entrada” de muitos outros vícios e outras drogas, inclusive ilícitas, o álcool nos ameaça a cada gole e nossa responsabilidade neste trabalho de enfrentamento este mal, como filhos amados de Deus e testemunhas do Cristo, nos exige um posicionamento e uma postura ativa junto a tantos que hoje são reféns neste vínculo nefasto que arrasta para a depreciação moral, material e até para a perda irreparável de vidas. Tal responsabilidade nos exige a simples, mas às vezes, tão difícil, coerência ente discurso e comportamento.

Para uma sincera reflexão ao longo das próximas semanas, suscito nosso compromisso com este  tema, quer como possibilidade real de mudança para alguns de nós, ligados até com laços afetivos ao álcool, disfarçado em vício “tolerável’ e droga socialmente aceita; quer como outros, não praticantes deste hábito, mas como cristãos que desejam o céu para si e para os outros, que são impelidos a denunciar, por isso, a devastadora ação do pecado, da cultura de morte; quer, por fim, como aqueles que, já tendo provado do amargor das conseqüências deste vício, hoje vivem em constante vigilância do afastamento desta prática dia a dia, fruto de sua decisão e de seu renovado sim à sobriedade, testemunhas a tantos irmãos ainda presos ao vício. Livres para escolher; temos, no entanto, de responder, obrigatoriamente, às conseqüências de nossas decisões e muitas vezes, vale a máxima: Nossos erros nos acompanham; porém, afirmo com segurança, como afirmou o anjo à Maria: Para Deus nada é impossível! (Lc 1:37), e Ele quer sempre o melhor para cada um de nós; vida plena, vida em abundância (Jo 10:10).

Leno Carmo

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